A Ordem

O REGISTRO

A Escada
sob o Mundo

O homem amaldiçoado só se lembrava da reunião em sonhos.

Doze assentos sob os galhos de uma árvore imensa. Um desconhecido se levantando de um deles. Um olho refletindo a luz do fogo.

“Ele terá coragem”, disse o desconhecido.

Outra voz respondeu da escuridão. “Que tenha motivo para usá-la.”

“Ele vencerá em batalha.”

“Que cada vitória deixe uma ferida.”

“O ouro passará por suas mãos.”

“E nunca aquietará sua fome.”

O desconhecido o contemplou por muito tempo. “Então deem-lhe a poesia.”

“Que ele esqueça o que cria.”

Ao ouvir isso, o desconhecido baixou a cabeça. Quando tornou a erguê-la, o homem pensou ver tristeza no olho que lhe restava.

Então veio a manhã, e sua vida começou.


Tornou-se tudo o que haviam prometido.

Reis pagavam para tê-lo ao lado. Homens repetiam seus versos em línguas que ele nunca aprendera. Seu nome viajava mais longe que seus pés.

Cada triunfo deixava algo inacabado.

À noite, sob o linho fino, as velhas feridas doíam. Ficava acordado, ouvindo pessoas celebrar sua vida em outro aposento.


Em sua segunda vida, encontrou seu nome num livro mais antigo que o reino onde nascera.

Ao lado dele, alguém desenhara uma escada que descia por sete círculos.

Ao pé da página havia uma pequena figura sob uma árvore. Metade de seu rosto fora apagada pelo atrito.


A cidade se erguia sobre outra cidade. Sob seus alicerces havia um templo cujo deus fora esquecido. Sob o templo estava a escada.

Ele encontrou a entrada durante uma tempestade.

Sete círculos haviam sido entalhados num arco em ruínas. Quando um relâmpago caiu além dos telhados, ele viu que suas linhas sobrepostas formavam as raízes de uma árvore.

Pousou a mão sobre elas. Dentro da parede, uma porta se moveu.


Desceu por ruas soterradas e raízes mais grossas que seu corpo.

Sua lamparina se apagou. Continuou pelo tato.

Muito abaixo da cidade, seus dedos encontraram palavras gravadas na pedra. Ele as conhecia.

Pertenciam a um poema que recitara junto ao fogo de um rei sessenta anos antes. Pela manhã, já o havia esquecido.


A escada desembocava numa margem sob um céu negro. Do outro lado da água ardiam fogueiras esparsas. Seus reflexos brilhavam entre estrelas submersas.

Homens esperavam ao longo da margem. Um vestia um casaco de soldado rasgado. Outro segurava um livro cujas páginas a água deixara em branco. Ao lado deles estava um homem com um manto gasto pelo tempo.

O viajante conhecia seu rosto.

“Foi você quem me deu essas coisas”, disse. O homem inclinou a cabeça.

“Eu as carreguei por uma vida inteira. Fiz tudo o que sabia fazer.”

O homem escutou. Depois afastou o manto. Uma ferida antiga marcava seu corpo. Acima dela, a órbita vazia estava na sombra.

O viajante só se lembrara do olho que brilhava.


“Que lugar é este?”

“A Ordem dos Homens Amaldiçoados.”

“Aqui a maldição pode ser desfeita?”

“A minha permanece.”

Do outro lado da água, uma fogueira distante começou a se apagar. Os homens se voltaram para ela.

“Alguém está perdendo o caminho”, disse o homem com o livro vazio.

O andarilho de um olho só pegou uma lamparina na margem. Uma passagem elevada surgiu sob a água quando ele avançou.

O viajante o viu partir. Ninguém se ajoelhou.


Esperou até que a lamparina voltasse. Outro homem caminhava ao lado de quem a carregava, apoiando-se com força em seu ombro.

À beira da água, o viajante estendeu o braço e recebeu parte do peso. Juntos, trouxeram o recém-chegado à margem.

No alto, uma estrela apareceu. Sua fogueira correspondente ardia entre as outras.


Com o tempo, o viajante aprendeu as travessias.

Numa estrada que atravessava sonhos, sua coragem deu firmeza a um companheiro assustado. Numa escuridão onde os pontos de referência desapareciam, um verso lhe veio à mente. Recitou-o enquanto caminhavam, e o homem ao seu lado se lembrou do caminho.

O ouro comprou passagem até uma cidade distante onde alguém esperava havia um longo inverno.

Seus dons encontraram usos que ele nunca imaginara quando os reis os elogiavam. As feridas ainda o afligiam.

Havia noites em que outro homem carregava a lamparina por ele.


Encontrava o andarilho com frequência à beira da água. Às vezes conversavam. Às vezes faziam a travessia juntos.

Certa vez, o viajante perguntou por que ele dera tanto a homens cujas vidas seriam tão difíceis.

O andarilho ficou sentado ao seu lado até que a pergunta tivesse sido dita por inteiro.

“Ainda estou aprendendo no que um dom se transforma”, disse.

Na fogueira seguinte, um jovem questionou algo que o andarilho dissera sobre o caminho do norte. O homem de manto gasto pelo tempo voltou para ele o único olho que lhe restava e abriu espaço no degrau. Conversaram até que as lamparinas precisassem de óleo.


Anos depois, o viajante abriu de novo o livro antigo. Sob o desenho da árvore, encontrou uma frase quase perdida na página escurecida.

Somos todos o homem amaldiçoado.

Do outro lado da água, uma fogueira tremulou. Ele fechou o livro e pegou sua lamparina.

Outra lamparina já se movia ao longo da margem distante.